top of page
Search

didion

Writer: Fernanda Stocche Barbosa
Fernanda Stocche Barbosa
Aug 7
2 min read

toda vez que fecho o livro, sinto os olhos ardendo, mareados e dou-lhe um beijo à capa dele. me sinto próxima dela. como se conhecêssemos uma a outra. bom, pelo menos eu tô te conhecendo, di.


essa maré de lágrimas não é sempre necessariamente de dor. ora é reconhecimento de mim ali, naquela dor, naquela mulher mesmo que em 1970, mesmo que na califórnia. ora é emoção de não estar sozinha ali, de me sentir parte, de me sentir vista por alguém que já não vê nada desde 2021. - ora é felicidade plena de simplesmente estar viva numa sexta-feira de agosto, com 2h inteiras pra eu poder fazer o que quiser. acordando sem ressaca. inteira.


sim, o luto tem desses choros. e sinto que eu tô apenas começando. acho que como muita gente, eu fugi muito de lutos na minha vida. como se, a la didion, eu pudesse então evitar a morte. que ela não levasse aqueles que eu não tava pronta pra enterrar.


como uma boa aquariana, pode-se dizer que eu às vezes sublimo meus mortos e eles sequer podem virar fantasmas. e fica o vazio. fantasma nem é algo tão assustador assim se você pensar que também existe o absoluto nada. o que é mais tenebroso? eu fico com os fantasmas. eles fazem companhia. são sobras do que um dia foi - são melancólicos e frios, têm a carne azul e cheiram naftalina, mas o nada já está e não há nada que fazer.


antes de decidir pela sublimação eu decidi descer aqui no hades. conversar com meus mortos. a odisseia ainda tá tão viva em mim, cada hora uma cena me volta. aquela que ele encontra o soldado morto, sinon. tô ali hoje. conversando com os fantasmas que se foram só e com os que decapitei eu mesma. tô ali hoje. tirésias tem mensagens pra mim. e se eu ouvir bem, quem sabe eu aprendo algo diferente.


como pode ser que a morte seja um tabu se ela também é corriqueira? assim como a vida. como pode tanto a gente se assustar e correr longe de algo que é, no fim das contas, a única certeza? a morte, assim como a vida, tá em tudo. onipresente. desconfio que o que nos fascina tanto na morte é que ela simplesmente vem, muitas vezes sem aviso, sem sinal e nos deixa completamente cientes da nossa impotência perante ela.


eu poderia explicar de que morte tô falando, antes que eu receba alguma mensagem de algum querido amigo que decidiu ler meu blog, querendo desesperadamente saber 'quem morreu? você tá bem?' e acho que vou, prefiro aqui, assim: quem morreu fui eu. não por completo. mas parte de mim. e foi do nada. apesar de avisos e sinais, não parecia tão grave assim. mas assim como didion, 'você senta para jantar, e a vida que você conhecia, termina.' - ia dizer não se espante, mas é sim espantoso, então sinta como quiser. é espantoso mas acontece. talvez nós que não nos damos conta, ou não encaramos. - e se você cara amiga, ainda tá aqui lendo, segurando minha mão, é porque você também tem olhos de quem acabou de sair do oftalmologista com as pupilas dilatadas. - olhos de quem perdeu alguém amado. - a gente se reconhece.



 
 
 

Recent Posts

See All
vórtice

ainda não acabei o livro de didion. são apenas 200 páginas. tenho lido devagar. mas não é só isso. a cada parágrafo eu paro e me deparo com meu próprio luto ali descrito. o ano do pensamento mágico é

 
 
 
impulse

when i opened my computer today, i promised i'd write in whatever language made sense, without thinking too much. i can be highly impulsive — so much so that i could barely wait for wix to load. and a

 
 
 
encaixe

que tipo de jeito e de como eu tenho pra aprender a vida eu gosto de observar e criar teorias sobre tudo gosto de achar semelhanças e diferenças entre coisas e pessoas quando, com 10 anos, comecei a m

 
 
 

Comments


bottom of page