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vórtice

Writer: Fernanda Stocche Barbosa
Fernanda Stocche Barbosa
Aug 24
2 min read

ainda não acabei o livro de didion. são apenas 200 páginas. tenho lido devagar. mas não é só isso. a cada parágrafo eu paro e me deparo com meu próprio luto ali descrito. o ano do pensamento mágico é sobre luto. sobre morte. é sobre nossa condição humana de simplesmente estar vivo.


minhas últimas palavras, nossa última conversa. foi dura. fui dura. percebi que eu, assim como criei aquilo tudo teria que ser dura em pôr um fim. ninguém gosta de fins e não tem como fazer isso de maneira a não machucar ninguém. não tem.

me lembro das lágrimas, do sangue, do choro, da minha imagem desfigurada de mim mesma ali mais uma vez. me lembro me odiar por ali estar e repetindo a mesma coisa, mais uma vez. me lembro do cansaço físico. emocional. me lembro de querer parar e desistir. eu até tentei. me arrastei como um fantasma pra cama como se assim pudesse me render ao perdão por toda aquela algazarra que eu tava causando. me levantei. briguei. doeu, dói e vai doer. em todos os tempos verbais e talvez ainda por muito tempo. me pego chorando pelos cantos de vez em quando. e agora também.


tava tão envolvida com a odisseia que em um surto de realidade eu lhe disse. 'eu sou a calypso e eu tô te prendendo aqui nessa ilha, mas você tem que ir embora' me lembro de ficar puta comigo mesmo no dia seguinte. era ele a calypso, era ele as sereias, me envolvendo, não me deixando ir embora.

hj sinto que fomos os dois calypsos e sereias. ele se escondeu na minha ilha por não querer enfrentar seu caminho e eu porque quis muito acreditar que aquilo me servia, que ali eu moraria pra sempre.


hj eu choro não só a pessoa que se foi, mas o que eu desejava tanto ser do lado dela. choro os planos, os sonhos, choro pela paixão e pelo amor que bateu em mim, onda do mar do amor e que me abandonou aqui saudosa por ser invadida medo de não poder mais se encher dele. essa frase a seguir é atribuída a odisseu, mas não está em homero, e sim em nolan, e eu acredito que foi uma grande contribuição: 'ele te diz que o que você mais quer é o que você mais não pode ter. e o que você mais não pode ter é o que você já teve, e perdeu.' - o que eu mais quis com ele é o que eu nunca poderia ter, e por isso eu choro. choro amarrada no mastro esperando que uma hora passe. e que a maré se acalme.

 
 
 

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